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Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas saquearam pinturas, esculturas, desenhos, relíquias religiosas e artefatos culturais de valor inestimável de igrejas, universidades, museus e coleções particulares em toda a Europa.

Imagine hoje ir a museus e não ter o privilégio e a alegria de ver obras como a Dama com Arminho, de Leonardo da Vinci; O Astrônomo, de Vermeer; ou o Busto de Nefertiti. Essa possibilidade quase ocorreu, no entanto.

Durante a Guerra, os nazistas confiscaram, roubaram e pilharam um total de cerca cinco milhões de objetos de arte, particularmente aqueles pertencentes a famílias judaicas.  Apenas das coleções da família Rothschild, na França, o governo de Hitler confiscou cerca de 5.009 itens.

Vermeer, O Astrônomo, 1668. Louvre, Paris. Obra confiscada de Édouard de Rothschild, em Paris, em 1940. (Wikimedia Commons)

Vermeer, O Astrônomo, 1668. Louvre, Paris.
Obra confiscada de Édouard de Rothschild, em Paris, em 1940.
(Wikimedia Commons)

Na guerra, o roubo de arte está relacionado às tentativas de domínio e destruição de identidade do povo dominado. Após a ocupação da Polônia, por exemplo, com o objetivo de exterminar a cultura desse país, os nazistas saquearam mais de 516 mil objetos de arte, o correspondente a quase 43% do patrimônio cultural polonês. Cerca de 2.800 pinturas de artistas europeus e 11.000 pinturas de artistas poloneses foram levados.

A obra Dama com Arminho (1452-1519), de Leonardo da Vinci, um dos tesouros nacionais da Polônia, foi roubada da coleção dos príncipes Czartoryski, em 1939. Hoje pode ser admirada no Museu Nacional de Cracóvia, na Polônia. (Wikimedia Commons)

A obra Dama com Arminho (1489-1490), de Leonardo da Vinci, um dos tesouros nacionais da Polônia, foi roubada da coleção dos príncipes Czartoryski, em 1939. Hoje pode ser admirada no Museu Nacional de Cracóvia, na Polônia.
(Wikimedia Commons)

Soldados alemães saqueando o Museu Zachęta, em Varsóvia, em 1944. (Wikimedia Commons)

Soldados alemães saqueando o Museu Zachęta, em Varsóvia, em 1944.
(Wikimedia Commons)

Os saques de obras de arte, que começaram com base ideológica, tornaram-se uma política governamental organizada. Pintor frustrado – Hitler foi rejeitado pela Academia de Belas Artes de Viena – ele tinha como ambicioso plano construir, em Linz, sua cidade natal, um “super museu”, o Führermuseum (Museu do Líder, em português);
Como esse fim, o regime nazista seguiu um plano sistemático e organizado para apreender obras de arte e que, posteriormente, seriam ali exibidas.

Pilhagem encontrada em uma igreja na cidade alemã de Ellingen. (Crédito de imagem: National Archives and Records administration)

Pilhagem encontrada em uma igreja na cidade alemã de Ellingen.
( National Archives and Records Administration)

As obras de arte saqueadas eram também destinadas a coleções privadas de líderes do Partido Nazista, tais como Hermann Göring. Já as obras consideradas por Hitler como arte “degenerada”, tais como as Cubistas, as Expressionistas, as Futuristas, as Dadaístas ou qualquer escola que se desviasse do representacionalismo clássico, as quais ele considerava produto de uma sociedade decadente, eram vendidas a compradores em países neutros, como a Suíça, com o objetivo de levantar capital para a compra tanto de materiais para a máquina de guerra nazista, quanto para obras de arte para o futuro Museu do Líder.

Por volta do final da guerra, as obras de arte saqueadas estavam armazenadas em diversas localidades, tais como mosteiros, bunkers militares e castelos, mas alguns dos maiores repositórios estavam dentro de minas de sal, que, além de estarem protegidas contra bombardeios aliados, ofereciam as condições adequadas de umidade e temperatura para as obras de arte. Juntos, eles continham literalmente dezenas de milhares de itens de importância cultural, histórica e financeira insubstituível.

Interior da Mina de Sal de Altaussee (National Archives and Records Administration)

Interior da Mina de Sal de Altaussee
(National Archives and Records Administration)

Grande parte dessas obras e artefatos foi recuperada por agentes de um programa criado pelo Aliados, Monuments, Fine Art, and Archives (MFA&A), conhecido como Monuments Men. O programa era formado por um grupo de agentes americanos e britânicos –  diretores de museus, curadores, historiadores de arte, arquitetos e outros – cuja função era proteger a propriedade cultural da destruição e encontrar e resgatar obras de arte e outros artefatos culturais que os nazistas haviam apreendido.

O filme The Monuments Men (2014) ou Caçadores de Tesouros, em português –  estrelado por George Clooney, Matt Damon, Bill Murray and Cate Blanchett – conta os desafios deste grupo de agentes que, em uma luta contra o tempo, arriscaram suas vidas vasculhando a Europa, para resgatar e preservar os tesouros artísticos saqueados.

(Crédito de imagem: National Archives and Records administration)

(Crédito de imagem: National Archives and Records Administration)

Na foto acima, agente do Monuments Men, o director de museu James Rorimer, que inspirou o personagem de Matt Damon no filme, supervisiona soldados americanos retirando pinturas do Castelo Neuschwanstein, na Alemanha.  Apenas desse castelo foram utilizados 52 caminhões, para remover 634 caixotes de objetos de arte.

O castelo alemão de Neuschwanstein. Um dos principais repositórios.

O castelo alemão de Neuschwanstein. Um dos principais repositórios.

Em 1945, os Monuments Men descobriram a respeito da mina de sal de Altaussee. A instrução de Hitler era que, na hipótese de ele morrer ou os alemães perderem a guerra, todos os repositórios de arte, inclusive este, deveriam ser implodidos. Com a guerra terminando e a Alemanha do lado errado, oito bombas de avião foram colocadas na entrada da mina de sal. Felizmente, mineradores austríacos de Altaussee se recusaram a seguir as ordens de Hitler.

Mineiros austríacos pousam junto às bombas desativadas na Mina de Sal de Altaussee. (Crédito de imagem: National Archives and Records administration)

Mineiros austríacos pousam junto às bombas desativadas na Mina de Sal de Altaussee.
(Crédito de imagem: National Archives and Records Administration)

Isso deu tempo para os Monument Men chegarem até a mina e salvarem as obras.  Após dias de escavação, sem saber o que iriam encontrar, eles se depararam com importantes tesouros culturais da Europa, tais como a Madonna de Bruges, de Michelangelo, o Altar de Ghent, pelos irmãos Van Eyck, obras de Rubens, Rembrandt, Vermeer e Dürer.

A Madona de Bruges (1501-04), de Michelangelo, uma importante escultura renascentista, foi saqueada de Bruges em 1944, quando os Aliados avançaram sobre a cidade.
(Hans Spliter (flicker) – https://creativecommons.org/licenses/by-nd/2.0/)

À esquerda, a Madona de Bruges sendo embalada por George Stout, um conservador de arte de de Harvard e agente do Monuments Men, para ser retirada da mina de sal de Altausee. À direita, George Clooney interpretando George Stout.
(Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0)

Hubert e Jan van Eyck, Adoração do Cordeiro Sagrado ou Retábulo de Gante, 1420-1432. Catedral de São Bavão, Gante, Bélgica. Obra escondida na Mina de Sal de Altaussee e recuperada em 1945.
(Wikimedia Commons)

O Retábulo de Gante, desmontado, na Mina de Sal de Altaussee

Detalhe do retábulo Adoração do Cordeiro Sagrado ou Retábulo de Gante.
(Wikimedia Commons)

Esses bravos heróis não apenas localizaram e resgataram obras desses repositórios, como também supervisionaram sua proteção, catalogação, embalagem, remoção e devolução.

Os Monuments Men fizeram um grande trabalho. Sem seu persistente e corajoso trabalho, muitos dos tesouros que durante séculos definiram a herança da civilização ocidental teriam sido perdidos.

Ronald Balfour

Agente do Monuments Men


Historiador especializado em arte medieval, com atividades em Cambridge e Kings College, morto em 1945, em Cleve, na Alemanha, por uma explosão de munições, enquanto ele e outros homens tentavam realocar peças de um retábulo medieval em segurança. Foi o primeiro dos dois Monuments Men mortos em ação.

Algumas das obras recuperadas

Busto de Nefertiti, c. 1345 A.C. Neues Museum, Berlim.
Descoberto no Egito por um arqueólogo alemão antes da Segunda Guerra Mundial.
(Wikimedia Commons)

O Busto de Nefertiti, recuperado pelos Monuments Men e exposto em Wiesbaden, Alemanha, em dezembro de 1945.
(Stars and Stripes www.stripes.com)

Édouard Manet, No Conservatório, 1879. Alte Nationalgaleri, Berlim.
(Wikimedia Commons)

Soldados posam diante da obra, descoberta em uma mina, em 1945.

Vermeer, O Astrônomo, 1668. Louvre, Paris. Obra confiscada de Édouard de Rothschild, em Paris, em 1940. (Wikimedia Commons)

Vermeer, O Astrônomo, 1668. Louvre, Paris.

O Astrônomo, de Vermeer, sendo encontrada em Altaussee.

Generais americanos admirando a Dama com Arminho, de Leonardo da Vinci, antes de ser devolvida à Polônia

Carolina Horta
Carolina Horta
Carolina Horta é formada em História da Arte pela Universidade de Londres e tem cursos de especialização pela “Sotheby’s Institute of Art”. Ela é servidora pública federal e trabalha no exterior há quase nove anos. Atualmente, mora em Varsóvia, na Polônia; antes disso, morou em Londres por mais de seis anos. Morando há tantos anos na Europa, ela tem tido o privilégio de frequentar feiras, bienais, exposições e inúmeros museus, assim como ter acesso a um rico e extenso material sobre arte. Arte até Você é um projeto que nasceu de sua paixão pela arte e de sua vontade de compartilhar e fazer chegar essa paixão aos leitores, onde quer que eles estejam. Sua intenção é informar, inspirar e fazer com que mais pessoas se apaixonem pela arte.

2 Comments

  1. Marcia Monteserrat disse:

    Maravilhosa pesquisa! Parabéns!

  2. Georgina disse:

    Grande parte do conhecimento humano quase foi perdido. Obrigada por nós trazer essas histórias maravilhosas.

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